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Brincar Sozinho
Tema: [Educação]
É uma forma saudável de desenvolver a imaginação e a auto-estima, de expressar sentimentos e emoções e de resolver conflitos interiores. Se o seu filho está a brincar sozinho, não o interrompa!
Brincar é um assunto sério para todas as crianças de todas as idades. É a brincar que crescem e aprendem, experimentam e praticam futuras competências. Muito antes de surgirem os amigos, as crianças já brincaram muito, com a mãe, com o pai e também sozinhas.
Nos primeiros meses, o bebé vive numa dependência total da mãe. Ainda não tem uma imagem de si próprio e só existe para si quando a mãe está presente, como se fosse uma espécie de prolongamento dela. Progressivamente o bebé vai interiorizando a imagem da mãe e construindo a sua própria imagem, num processo lento a caminho da autonomia. Ao longo desse processo, feito de avanços e recuos, a criança começa a desenvolver a imaginação e o pensamento simbólico e, quando a mãe não está presente, começa a brincar sozinha, criando situações em que ela está representada.
O faz-de-conta
A partir dos dois anos, as brincadeiras passam principalmente por imitar os adultos, nomeadamente a mãe e o pai, num jogo de faz-de-conta em que a criança assume vários papéis. A brincar sozinha, exprime muitos sentimentos e resolve conflitos. A boneca pode ser a filha a quem é preciso ralhar, mas logo a seguir dar colo e beijinhos.
Os papéis são levados muito a sério, com vozes, entoações e expressões a condizer com cada uma das personagens. Nesta altura, é possível observar como cada criança brinca de maneira diferente, umas com mais tendência para representar na perfeição, adorando máscaras e fantoches, outras revelando-se óptimos produtores, criando cenas com muitos personagens e diferentes disposições de objectos. As brincadeiras de faz-de-conta desenvolvem a capacidade de abstracção da criança. Se no início são muito rudimentares e se reportam apenas a cenas familiares do dia-a-dia, pouco-a-pouco, à medida que a criança vai vivendo mais experiências, as brincadeiras começam a complexificar-se avançando para cenários de filmes, personagens fantásticas e novos conceitos, continuando, no entanto, a cumprir o mesmo papel de expressão de sentimentos e de emoções reais. A criança tão depressa é uma pessoa crescida, como regressa à forma de bebé de colo, manifestando o conflito que sente entre querer crescer e não querer separar-se da mãe.
Os amigos
À medida que vai avançando no processo de socialização, a criança começa a gostar de brincar com outras crianças. Não são verdadeiros amigos, mas apenas companheiros circunstanciais de brincadeiras. Nesta altura, por volta dos dois anos ainda não são cooperantes e nem sempre se entendem facilmente. Disputam todos os objectos e se querem «meter conversa» com uma criança acabada de conhecer, oferecem-lhe amigavelmente um brinquedo.
Aos três anos, as brincadeiras já implicam cooperação e «trabalho de equipa» e as crianças começam a apreciar verdadeiramente a companhia umas das outras. Algumas fazem amigos com toda a facilidade e em todas as situações. Outras, pelo contrário, têm um ou dois amigos (que normalmente são colegas da creche, primos ou filhos de amigos dos pais) e não estabelecem relações com facilidade. No entanto, ter só um amigo não é motivo para preocupações, pois entre ter um amigo e não ter nenhum a diferença é total. Se o seu filho tem um amigo, isso quer dizer que desenvolveu normalmente a competência social de se relacionar com os outros. Se não tiver nenhum amigo, nem conseguir brincar com as outras crianças preferindo sempre estar sozinho, nessa altura convém perceber o que se passa, porque afinal, ninguém é feliz sem amigos.
Sozinho, mas não solitário
Ultrapassada a fase de aprender a fazer amigos e de descobrir o prazer de brincar com eles, há algumas crianças que continuam a gostar muito de estar sozinhas. Não quer dizer que sejam solitárias, mas apenas que não são tão sociáveis e que não precisam tanto dos outros para se divertirem e entreterem.
Querer e gostar de brincar sozinho não só é normal como também é emocionalmente saudável. Continua a ser uma forma de desenvolver a criatividade e a auto-confiança, «arrumando as ideias» e dando à criança espaço para resolver os seus dilemas interiores.
Por outro lado, há crianças que, aos quatro anos, são muito sociáveis, gostando imenso de brincar com outras crianças, mas que se transformam, por volta dos cinco anos, em crianças sozinhas. Nestes casos pode haver uma séria dificuldade em passar para uma fase seguinte. Ou seja, aos cinco anos os amigos passam a ser muito mais do que aqueles que fazem as vontades todas e que não tiram os brinquedos. Passa a haver muito mais trocas e aprende-se a reciprocidade. Para as crianças um pouco autoritárias pode ser difícil aprender esse conceito e então brincar sozinho torna-se quase uma castigo. Os pais podem ajudar fazendo jogos em que seja suposto «dar a vez», respeitar o adversário e saber perder.
Crianças tímidas
A principal razão que leva as crianças a isolarem-se das outras, ficando invariavelmente a brincar sozinhas, é a timidez. Cerca de vinte por cento das crianças são tímidas por natureza. Desde bebés que mostram resistência e desconfiança face a novas pessoas, viram a cara e algumas até desatam a chorar. Mais velhas, na idade de descobrir os amigos e de crescer com eles, continuam a evitar novos contactos e o pior é que sofrem com isso. Pode apetecer-lhes imenso brincar com outra criança que acabaram de conhecer, mas ao mesmo tempo não conseguem aproximar-se e fecham-se cada vez mais numa concha intransponível.
A timidez não é um fenómeno racional, por isso não é grande ajuda explicar à criança que não há razão para ter vergonha e que vá brincar à vontade. O melhor é começar devagarinho uma brincadeira qualquer que aproxime as duas crianças e daí a pouco já serão grandes amigos.
Os pais que comentam com os amigos a timidez dos filhos, enquanto estes se escondem atrás das suas pernas para se tornarem invisíveis, também não estão a ajudar. Dessa forma a criança convence-se cada vez mais de que é diferente e a sua auto-estima vai ficando afectada. Ignore o desejo de invisibilidade e puxe um tema de conversa que interesse à criança para que ela se vá integrando devagarinho.
Convide uma ou duas crianças para brincarem com o seu filho em casa. Estar no seu «território» oferece-lhe uma segurança que ajudará a ultrapassar mais facilmente as barreiras da timidez.
Dê-lhe sempre o tempo que é preciso para fazer novos contactos, nunca forçando situações e comentando o menos possível. Sobretudo, não se preocupe nem inveje os filhos dos outros para quem todas as pessoas são velhos amigos. Com o tempo todas as crianças aprendem a vencer a timidez e, se pensar bem, o seu filho deve ter a quem sair.
Autora: Ana Esteves
texto retirado de:www.paisefilhos.iol.pt
www.paisefilhos.iol.pt
2008-04-07
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